“O Brasil será melhor depois da Lava Jato”

31 de julho de 2017

O deputado federal Marcos Abrão (PPS-GO) concedeu entrevista ao jornal Diário da Manhã nesta semana, confira abaixo a íntegra da publicação:

 

Pelo que o senhor sente na Câmara Federal, Michel Temer fecha esse ano na presidência da República ou não?

Eu acredito que a votação da denúncia na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados já nos aponta os rumos da tramitação dessa matéria na casa, do que acontecerá no plenário. Acho difícil reunir dois terços dos deputados para encerrar o mandato do presidente Temer.

 

O senhor acha que ele cometeu erros graves e que deve pagar com o mandato?

Estamos falando do afastamento de um presidente da República, é algo grave e que precisa ser minunciosamente observado, averiguado. E é preciso pensar também na estabilidade econômica e política do país, para que a gente não agrave a situação de crise que os brasileiros estão enfrentando. São mais de 14 milhões de desempregados no Brasil hoje. Nós precisamos pensar em todos esses fatores.

 

São dois presidentes caindo em 2 anos. Na visão do senhor isso ensina algo para o povo brasileiro?

Nós vivemos hoje uma crise moral. As pessoas que utilizam recursos públicos para cometer atos ilícitos precisam fazer uma reflexão. O país de 2014 não é o país que vamos encontrar em 2018. A sociedade não tolera mais a corrupção e a classe política hoje enfrenta um descrédito muito grande. Mas, eu acredito que isso será positivo no sentido de que mostra para as pessoas a importância do voto, a importância de escolher seus representantes, de conhecer o trabalho das pessoas a quem se está conferindo um mandato. E será positivo também porque esse cenário incentiva as pessoas de bem a participarem da política, a serem gestores públicos, a darem a sua contribuição para tornar nossa sociedade melhor. As pessoas que participam das atividades políticas precisam estar ali para servir, para se doar ao outro, e não para ser servido, para se servir do poder público.

 

O senhor acredita que a Operação Lava Jato corre o risco de ser extinta?

Não, pelo contrário. Apesar de todo esse cenário de crise que estamos discutindo, as instituições brasileiras estão funcionando perfeitamente e demonstrando sua força, demonstrando o resultado da indignação da sociedade. Eu acredito que a Lava Jato será um marco na política e na história brasileira.

A sensação que nós temos é de que a corrupção nunca acaba. Como é que o senhor quantifica isso em prejuízos para o país?

A corrupção causa o pior mal que pode atingir a nossa população que é o cerceamento de futuro. Quando você se depara com esse tipo de atitude, estamos vendo recursos que poderiam ser investidos em educação, saúde, segurança, cultura sendo escoados de forma ilícita para particulares. Isso é muito triste, porque deixa mais precário o presente da nossa sociedade e nos impede de construir um futuro mais digno.

 

Que país o senhor acredita que teremos após essa crise política?

Não é qualquer país que consegue caminhar após a retirada de um presidente, após a derrubada de um presidente da Câmara dos Deputados e tendo a possibilidade de queda de outro presidente da República. Isso mostra a solidez das nossas instituições, do estado democrático de direito que construímos. Eu acredito que, após essa crise, nós teremos uma classe política alertada sobre a forma como deve desempenhar suas funções, a intolerância em relação a qualquer tipo de atos de corrupção e a sociedade mais preocupada com a política, mais consciente na hora de votar. Teremos um país melhor e mais maduro para lidar com a democracia.

 

O Brasil chegará ao ponto de reformar o sistema político, como tem acontecido hoje na França?

A reforma política é urgente no Brasil. Não tem condições uma campanha política custar o que custou em 2014. Só agora estamos vendo de onde esses recursos foram retirados e o quanto isso sai caro para a população brasileira. A reforma política é a reforma mais urgente e mais necessária para o país hoje, e eu acredito que com o clamor da população nesse sentido chegaremos sim ao ponto de reformar o sistema.

 

Já foi possível realizar a entrega de alguma emenda que é parte do orçamento impositivo da Câmara dos Deputados?

Eu já tive condições de entregar emendas em mais de 30 municípios, levando benefícios para a população de todas as regiões do estado. Entreguei máquinas, tratores, consegui reformar hospitais, escolas, levar recursos para os municípios que eu tenho representação e mesmo as cidades das quais não sou representante. Tenho utilizado essas emendas para ajudar as prefeituras e principalmente respaldar a população, que foi quem me deu a oportunidade de ter um mandato na Câmara Federal.

 

O senhor tem trabalhado muito pela área da Habitação. Como tem sido esse trabalho na Câmara Federal?

Eu fui presidente da Agência Goiana de Habitação e criei o Cheque Mais Moradia, que é o maior programa habitacional da história de Goiás, além do Casa Legal, que já regularizou e entregou gratuitamente mais de 17 mil escrituras no estado. Durante a realização desses trabalhos eu sempre esbarrei na questão legal, em empecilhos e pontos de desatualização na legislação, em situações em que eu precisava do acesso à Câmara Federal. Agora, recentemente, eu tive a oportunidade de alterar a lei de regularização fundiária, para permitir a entrega de mais escrituras e de contribuir com a aprovação da medida provisória 759, que no artigo 80 ordena a retomada de milhares de construções do Minha Casa Minha Vida Sub-50, que estavam paralisadas. São diversas as situações em que é preciso mudanças na legislação e que exigem a presença na Câmara Federal para lutar pelo direito à moradia e pelas demandas de Habitação do estado de Goiás.

 

O senhor tem acompanhado algumas caravanas do Goiás na Frente, enquanto a senadora Lúcia Vânia tem faltado. O que está acontecendo?

Eu tenho ido sempre que me convidam. Sempre vou aos municípios que eu represento. A questão da senadora acredito que seja em função de agenda. Afinal, nós ajudamos a construir esse governo que está aí. Esse governo não foi construído por uma pessoa, mas dentro de um conjunto de forças políticas do qual sempre fizemos parte no Estado de Goiás.

 

Quando se fala em construção de casas para quem precisa, Marcos Abrão foi quem deu essa arrancada e construiu casas em todo o Estado de Goiás.

Eu tive a oportunidade de desenvolver um bom trabalho na presidência da Agehab, e tenho tido a oportunidade de ajudar o governo do Estado de Goiás em todas as demandas de habitação em Brasília. Em várias situações em que o governo e os municípios goianos precisam de uma voz na Câmara Federal na área de Habitação eu estou sempre à disposição.

 

A oposição tem dito que o Goiás na Frente é um programa eleitoreiro. Qual a opinião do senhor sobre o programa?

A iniciativa é muito boa, vai amenizar a situação de dificuldade dos nossos municípios, e é importante a gente frisar que são impostos que estão sendo devolvidos para a população. Ninguém está fazendo favor para ninguém, precisamos acompanhar todas as ações para que esses recursos alcancem realmente as pessoas, em forma de melhoria, de benefícios, de obras. Mas eu não acredito que seja um programa eleitoreiro, a nossa sociedade hoje é politizada e sabe distinguir uma iniciativa de governo, como é o Goiás na Frente, de programas eleitoreiros. Até 2018, a população terá tempo de avaliar o programa e julgar. É a sociedade quem vai julgar no ano que vem se o deputado tem sido um bom deputado, se o governador tem sido um bom governador, se o senador tem sido um bom senador e teremos a oportunidade de manter ou de mudar, de decidir o rumo que queremos tomar. Eu acredito que os goianos têm condições de tomar essa decisão sem qualquer influência.

 

O governador está falando que vai construir 30 mil casas em Goiás até o fim do ano que vem. O senhor que começou esse processo de construção de moradias de interesse social no estado acha que isso é possível?

É possível desde que a Agehab tenha autonomia para trabalhar. Precisamos deixar muito claro que o trabalho de construção de casas depende de vários órgãos públicos, de dezenas de documentos e a Agehab hoje presta um serviço de excelência no estado e no Brasil. Agora, precisa ficar muito claro que se politizarem a gestão na Agehab, dificilmente essas casas serão construídas.

 

Como está a situação do Cartão Reforma, que o governo federal copiou do Cheque Mais Moradia?

O Cartão Reforma é um programa ainda em fase de implementação pelo Governo Federal em alguns municípios que serão pilotos e eu espero que rapidamente nós possamos trazer esse benefício para o estado de Goiás, tendo em vista que ele surgiu aqui.

 

Os números da economia estão melhorando. Isso significa que o país vai sair da recessão?

Eu acredito na recuperação da economia brasileira e acredito principalmente na força de trabalho do brasileiro. Nós já superamos crises muito mais graves e vamos superar essas dificuldades.

 

Com toda essa turbulência, o senhor acredita que ainda há espaço para discutir a Reforma da Previdência?

Eu tenho a impressão de que dificilmente conseguiremos votar a Reforma da Previdência ainda nesse mandato. E eu defendo que ela não seja votada agora. Ela deveria ser discutida no início de 2019, na próxima legislatura, para que seja mais legítima e tenha maior participação da população. A economia brasileira não vai quebrar até lá por causa da previdência e, para se fazer reformas profundas como essa, é preciso legitimidade, é preciso que o governo tenha o respaldo da sociedade.

 

Como o PPS está se articulando para a disputa de 2018?

O PPS é um partido presente em mais de 200 municípios goianos. Além dos prefeitos e vereadores, nós temos um deputado estadual, que é o deputado Virmondes Cruvinel, temos o meu mandato como deputado federal e eu espero que em 2018 nós possamos expandir os quadros do partido, mas aumentar principalmente a qualidade do debate. Não adianta ter um partido com muitos parlamentares se esses parlamentares não têm conteúdo. E eu queria aproveitar a oportunidade aqui para convidar a sociedade a discutir política. Nós precisamos fazer isso porque a política tem influência direta na vida das pessoas e o momento de se discutir é agora, no ambiente partidário. Nós temos o objetivo de construir um partido que seja plural, representativo e próximo da população. Eu não sou dono do partido. Ainda não é o momento de afunilar nomes para 2018 e nós ficaremos do lado da sociedade, depois desse momento de diálogo.

 

Que passos o senhor acha que serão necessários para consolidar um nome para governador e para os demais cargos majoritários da chapa?

Eu acho que nós temos que discutir um projeto e não pessoas. O projeto que nós temos hoje no governo do estado não foi construído por uma pessoa sozinha, mas por muitas mãos. As vagas devem ficar com os melhores pré-candidatos, com os mais preparados e que estejam mais conectados com população. Os nomes não podem ser retirados simplesmente da vontade de alguns dirigentes.

 

O que senhor pensa a respeito de Segurança Pública?

Eu gostaria de pontuar aqui que a Segurança Pública deve ser vista com uma amplitude maior do que aumento do efetivo policial. Segurança pública passa por questões sociais. Os maiores índices de violência estão nos locais com maior desigualdade social. O crime é mais presente onde há ausência da atuação do Estado. Não adianta você querer ter uma sociedade mais segura se você não tem condições de dar educação, cultura, lazer, esporte e oportunidade de trabalho para as pessoas. Nós precisamos ter condições de formar cidadãos e não bandidos.

 

O senhor está contente com o trabalho que vem sendo realizado na Agehab hoje?

A Agehab é uma casa técnica e precisa continuar a atuar de forma técnica. Não adianta pensar que será factível construir casas em todo o estado de Goiás se você não tiver um corpo técnico blindado. É uma prerrogativa do trabalho da Agehab. Eu tenho muito medo das tentativas de influência política porque isso desqualifica e desestimula as pessoas que estão ali para fazer um trabalho técnico. Eu deixei, entre construídas e contratadas, mais de 50 mil casas, devolvendo para a população os impostos que são pagos, justamente por trabalhar de forma técnica.

 

Há muitas pessoas que recebem casas populares e vendem os imóveis, de forma ilegal. Como o senhor vê isso?

Em todas as áreas da sociedade existem pessoas boas e ruins. Uma pessoa que recebe uma casa subsidiada, apesar de estarmos falando de recursos públicos, está retirando recursos de quem mais precisa. A pessoa que vende essa casa está cometendo um crime, o comércio desses imóveis é ilegal. E os vizinhos que tomarem conhecimento desse tipo de situação, que denunciem, para que essa casa seja retomada e destinada a quem realmente precisa. Porque se a pessoa vende a casa, é sinal de que ela não está precisando.

 

O número de desempregados hoje no Brasil chega a quase 14 milhões. Como estão sendo as discussões na Câmara em relação a esse problema?

O desemprego é fruto de uma política econômica desastrosa. Nós não podemos tirar a responsabilidade de quem gerou essa crise econômica. Nós precisamos buscar um caminho para sairmos dessa recessão. O Brasil precisa fazer algumas reformas, como foi feita a Reforma Trabalhista, para dar mais estabilidade econômica para que essas pessoas possam voltar para o mercado de trabalho.

 

O senhor está encontrando algum tipo de resistência por ser político nesse momento em que a classe política anda tão desacreditada?

Eu nunca tive dificuldade em me colocar como político ou como agente público. Eu venho de uma família que faz política séria há mais de 50 anos no estado de Goiás. E, na minha opinião, essa crise será boa para quem quer fazer política de forma correta. E, em 2018, nós teremos a oportunidade de renovar. A sociedade precisa saber escolher e não votar num candidato que só vai à sua cidade na véspera de eleição. A gente precisa ter agentes públicos conectados com a população. Esse é o desafio. Eu nunca tive vergonha de dizer que sou deputado federal. Apesar de todas as dificuldades que nós estamos passando, eu acredito que, na classe política, tem pessoas boas e pessoas que não fazem um bom trabalho, e tenho me esforçado para desenvolver um trabalho sério na Câmara Federal por Goiás e pelas pessoas do meu estado.